MURO DA MAUÁ

Investigadores: Grupo investigación Objeto y Multimedia del Instituto de Artes de la Universidad Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Brasil.

Dirección:  Tetê Barachini Dez

Año: 2004-2016

Link: www.om-lab.com.br

Entre a proteção e o afastamento, entre a opacidade das superfícies e as fendas para as paisagens roubadas, entre o urbano e o lago, existe uma espessura longitudinal: o MURO da Mauá. Ambíguo em sua existência, ele resiste aos debates entre aqueles que o defendem como necessário e os que o consideram um estorvo reclamando a sua queda.

Sua proposição teve início na enchente de 1941, quando o medo às águas criou no imaginário coletivo a ideia de subir uma barreira junto ao Cais de Porto Alegre. Em 1967, uma nova enchente alastra as águas do Guaíba sobre a cidade e torna o desejo pelo MURO uma obstinação.  Em 1971, inicia-se a construção e em 1974, ele, o MURO da Mauá, torna-se uma realidade material ao longo do perímetro urbano com seus 2647 metros de extensão e seus seis metros de altura, sendo apenas três metros visíveis. Ao proteger-se do Guaíba, a cidade de Porto Alegre – RS/Brasil – nega em algum sentido sua vocação de porto, suas águas, seu acesso líquido e seu olhar para o outro lado da margem.

Este monumento – MURO –, de permanência questionável, entre 2014 e início de 2015, tornou-se o elemento propulsor dos trabalhos e dos debates do grupo de pesquisa Objeto e Multimídia do Instituto de Artes da UFRGS. E, logo após o levantamento de documentos históricos sobre o objeto escolhido, o grupo iniciou uma série de incursões ao MURO da Mauá.

Ao deambular por suas bordas, este objeto de improvável reconhecimento visual em sua totalidade, passou a ser legitimado pelo grupo, ora por sua invisibilidade junto aos trilhos, ora pelas suas fragmentárias superfícies grafitadas no seu lado Mauá, ou ainda, pela sua cor cinza chumbo esverdeada na quase totalidade do seu lado cais, interrompido apenas por uma superfície branca próxima a uma de suas comportas e pelo preto absoluto no seu limite com o porto.

Se, de um lado do MURO encontramos sinalizações e números de identificação patrimonial desenhados em uma comedida regularidade métrica indicando suas relações de distância e seu possível posicionamento geográfico, do outro lado do MURO, confabulamos sobre sua possível espessura enquanto espiamos por seus furos e por seus vãos semifechados às paisagens negadas.

Restam-nos, entre um percurso e outro, além da observação de suas rachaduras e da poluição do seu entorno, a companhia de suas palmeiras tropicais insólitas e, a percepção dos seus quase três metros de altura levemente inclinados em direção ao Guaíba, induzindo-nos discretamente a intuir o seu desejo de queda ou de reverência ao lago.

Ao nos situar em outro momento sobre a superfície líquida e expandida do Guaíba, o MURO torna-se para nós visualmente feio, bruto e segmentado, quando perceptível entre os vãos dos armazéns. E, na totalidade da paisagem, ratifica-se, definitivamente invisível perante a verticalidade da cidade que este se propõe proteger. Solitário em sua extensão, reconfigura-se em um espaço isolado, abandonado em seu próprio esquecimento, um lugar sem pertencimentos, sem acessos,  sem compartilhamentos, pois ele é, em sua fundação, o que separa um lado de outro.

Em 17 de outubro de 2015, o Guaíba atinge a marca 2,94 m acima do seu nível normal.  E, o MURO antes invisível e esquecido, assim como o lago, volta a ser percebido não porque protege, mas porque a crença em sua proteção efetiva para com a cidade de Porto Alegre é posta em dúvida. As águas, assim neste dia, reclamam para si a devolução do seu território suprimido pelos aterros ao tocar e ao perpassar delicadamente por debaixo de uma das comportas do MURO. Em reação, nega-se quase que imediatamente a consciência de uma paisagem que há muito tempo foi bloqueada ao subirem naquele dia barricadas com sacos de areia para proteger do lago, não apenas a cidade, mas o MURO.

A cidade de Porto Alegre olha o MURO como parte de uma paisagem urbana plasmada, não o penetra, não o atravessa, porque não o vê. Para os que frequentam a cidade e o veem, este os leva a olhar tanto para sua integridade material, assim como os convida a brincar de elevar os seus olhares até a sua borda e, lá de cima, tentar mirar o desejo oculto de resgatar uma cidade que se propunha ser outra, até 1941.  Neste sentido, as deambulações feitas pelo grupo são propositivas nas suas percepções e apreensões tanto coletivas como individuais em relação ao nosso protagonista, pois intuímos que os significados do MURO nem sempre são tão explícitos quando em sua presença, mas inegavelmente gerados a partir da absorção da sua existência.